O dilema do Bitcoin e as tulipas

Hoje vou falar para vocês sobre um ativo que em questão de um ano para o outro rendia certa de 400%, se você vendesse sua casa e investisse, logo teria dinheiro para comprar 2, ou 3 casa. As pessoas largavam seus empregos para especularem nesse mercado, e isso dava muito certo, em um mês ganhavam o que ganhariam em um ano em seus antigos trabalhos.


Creio que, à esta altura, já deve saber de qual mercado se trata. Porém, sinto muito em te decepcionar, o mercado em questão é o de compra e venda de tulipas, na Holanda do século XVII.


As tulipas eram flores que chamavam a atenção da alta sociedade europeia, e a Holanda soube bem como cultivar essas flores, que foram trazidas da Turquia. Logo a Holanda passou a ser o centro desse mercado.

No entanto, apareceu um elemento surpresa, um vírus, que ao infectar a planta, alterava sua pigmentação, deixando listras brancas entre a pigmentação da flor, o que as deixavam lindas, e esse fato, tornou as flores, infectados por este vírus, um objeto d extrema raridade e desejo, tanto que recebeu o nome de Semper Augustus. O preço dessa tão estimada flor, chegava a valer o que um apartamento de médio padrão vale hoje, cerca de R$800mil - muito dinheiro para um flor.

Devido ao altíssimo preço da Semper Augustus, o preço das demais tulipas também subiu, porém ainda eram muito baratas se comparadas à Semper Augustus - Seria o mesmo que comparar o preço de um carro super esportivo, com o preço de um carro popular da década passada.

Como é de conhecimento comum, a maioria das plantas florescem durante a primavera, no caso das tulipas, o bulbo irar flor. Logo, as negociações de flores ocorriam durante o breve período da primavera, só que, as pessoas precisam de dinheiro durante todo o ano, não em apenas 3 meses do ano. Foi nesse momento que os floristas tiveram a brilhante ideia, inauguraram o mercado futuro de tulipas - é claro que não tinha esse nome. Com o crescimento desse mercado, alguns especuladores compravam uma grande quantidade de bulbos na esperança de que, quando florescessem, venderiam por um valor mais alto do que pagaram, e esse era um ótimo investimento, pois o preço da flores não paravam de subir. Alias, os especuladores nem precisavam ficar os bulbos, eles ficavam com um contrato que garantia a posse, hoje conhecemos isso como títulos.

Não demorou muito tempo para que surgisse um mercado interessado nos contratos, e esse advento foi interessante pois, o detentos do título, que pagou 500x, não precisava esperar até que a flor nascesse para então vende-la, bastava ele vender o contrato por um valor mais caro do que ele pagou. Muitas pessoas viviam desse mercado especulativo, que só crescia.


Como muitos devem saber, nenhuma tendência de mercado dura para sempre, e foi o que aconteceu com o mercados das tulipas. O valor dos contratos tinham subido tanto que já não correspondia à demanda pelas flores, não haviam pessoas o suficiente para comprar as flores, e manter o mercado naquele patamar que estava. As pessoas àquela altura, só compravam os títulos na esperança de outra pessoa pagar mais caro por eles. Só que, assim como não haviam compradores de flores o suficiente, não haviam pessoas o suficiente, dispostas a pagar pelos contratos. Juntando esse cenário, e uma série de fraudes por parte dos floristas, foi o fim do mercado de tulipas. Contratos que antes haviam sido comprados por um altíssimo valor, agora não valiam nada.


Essa história lembra muito o que vem acontecendo com o bitcoin - antes que me crucifiquem, não estou falando mal, nem falando bem sobre ele. Pessoas investem altos valores comprando bitcoin, na esperança de que no futuro alguém vá pagar por eles, mais do que elas pagaram. Enquanto escrevo este artigo, o bitcoin é minimamente aceito ao redor do mundo, seu mercado gira, praticamente, na especulação, como foi com o mercado das tulipas. Entretanto, o bitcoin tem potencial de mudar esse cenário, uma vez que ele passe a ser aceito como moeda corrente, ai a história será outra. Mas vale a reflexão, como diz o filósofo Mário Sérgio Cortella, "o passado é referência para o futuro".


Por: Gabriel Felipe


Fonte: VERSIGNASSI, Alexandre. CRASH: Uma Breve História da Economia. Rio de Janeiro. HarperCollins Brasil, 2019

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